Concebido no início dos anos 1960, o filme conta a história real de um líder camponês que lutava pela reforma agrária e foi assassinado por um latifundiário. Suas gravações foram iniciadas duas semanas antes do golpe militar de 1964 e interrompidas pela prisão de parte da equipe de filmagem, acusada de comunista. O documentário só foi lançado com a redemocratização do país, em 1984. Tudo isso faz dele um ícone da esquerda brasileira. Estudantes, sindicalistas, intelectuais, militantes, todos amam Cabra marcado para morrer.
O destino fez com que a obra chegasse ao alto-comando do governo da ex-militante clandestina Dilma Rousseff, mas por vias tortas. Na semana passada, a presidente substituiu Mário Negromonte (PP), no cargo de ministro das Cidades, por ninguém menos que o neto do vilão de Cabra marcado para morrer. O filme fala da liga camponesa de Sapé, na Paraíba, e da morte de seu principal líder, João Pedro Teixeira. João organizara um grupo de 10 mil trabalhadores para defender melhores condições de trabalho, reforma agrária e justiça no campo e representava perigo para parte da oligarquia local. “João Pedro era semianalfabeto, mas sereno e tranquilo, com enorme prestígio. Mobilizava a massa. Não restou alternativa a não ser fuzilar o camarada”, diz o cineasta Vladimir Carvalho, assistente de Eduardo Coutinho no filme.
Segundo os livros Direito à memória e à verdade e Retrato da repressão política no campo, lançados pelo governo federal em 2007 e 2011, respectivamente, o mandante do assassinato, em 1962, foi o fazendeiro Aguinaldo Veloso Borges, avô de Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), nomeado ministro de Estado na quinta-feira 2. Aguinaldo, o avô, era um fazendeiro e usineiro nordestino riquíssimo. “O perfil era de um latifundiário daqueles mais tradicionais, aquele senhor de terras todo-poderoso. Às vezes, proprietário da vida das pessoas também”, diz Carvalho.
Via Época
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