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05 | DOMINGO | 2010
  • Postado em:29/07/2010

    Ícone do rock brasileiro fecha o mês do Clube de Vídeo

     

    Agenor de Miranda Araújo Neto foi um ser humano especial, desses de não se questionar sua passagem pela existência. Como muitos sabem, a existência pode ser tortuosa, a dor da alma faz pesar o mundo; mas para Cazuza, existir foi um ato de urgência e intensidade. De adolescente rebelde a ídolo de uma geração, de poeta a eterno apaixonado pelas sensações e vícios mundanos. Viveu pouco, mas em velocidade máxima, como mostra sua cinebiografia “Cazuza – O Tempo não Para” (2004), exibido nesta sexta-feira, dia 30, fechando a programação do mês de julho do Clube de Vídeo de Teresina, às 18h30, na Sala de Vídeo da Casa da Cultura. A entrada é, como sabem, gratuita.

     

    O filme abrange desde o início do Barão Vermelho até pouco antes da morte de Cazuza em decorrência da AIDS, o que aconteceu em 1990. Escrito pela habitual dupla Fernando Bonassi e Victor Navas, por sua vez baseado no livro escrito por Lucinha Araújo, mãe do cantor, o roteiro é um primor de bem escrito, que ao mesmo tempo em que não cai na bobagem de tentar explicar o protagonista, mostra-o sempre do ponto de vista de outras pessoas, seja seus pais ou seus amigos. Isso torna o filme mais calcado na realidade e sem aquelas suposições de subjetividade que os contadores de estórias têm a mania de fazer para tornar o personagem mais interessante ou menos bidimensional.

     

    Poucos filmes nacionais desenvolveram tão bem os seus personagens coadjuvantes, tornando-os importantes para a absorção da obra por parte do espectador. Outro ponto alto é o retrato da juventude da época. Se “Houve uma Vez Dois Verões” e “O Homem que Copiava”, ambos de Jorge Furtado, mostram bem a juventude da década de 90, “Cazuza” mergulha sem pudor no que representava ser jovem nos anos oitenta, o que faz o filme ser acima de tudo um retrato honesto e corajoso, tal como foi o seu ilustre personagem-título. Sempre numa urgência bem-vinda, coerente com a própria vida do cantor, que viveu intensamente e morreu jovem, o filme só arrisca tropeçar nos cortes de tempo que deixam aquele espectador desatento meio perdido. Entretanto, nada que não seja remediado logo dois minutos depois.

     

    Agora vamos falar das atuações, certamente uma das melhores características do filme. Sei que vou apenas repetir o que todos estão dizendo, mas é realmente impressionante a performance de Daniel de Oliveira, que recria Cazuza sem perder a própria personalidade, algo que Jim Carrey fez também de maneira genial em “O Mundo de Andy”, biografia do comediante norte-americano Andy Kaufman. Aqui, Daniel se entrega de corpo e alma e arrebata o espectador desde o começo.

    Seu 1 ano e meio de preparação para o papel valeram a pena. O impacto que causa na fase da AIDS, quando perdeu mais de dez quilos, é semelhante, se não maior, ao que Tom Hanks provoca em “Náufrago”. Que atuação! Todos os maneirismos e o modo de falar e cantar (sim, é ele que canta no filme, até certo ponto) estão idênticos.

     

    Obviamente, se a narrativa não desse o tom correto ao filme nada funcionaria. Sandra Werneck dividir a direção com o cotadíssimo fotógrafo Walter Carvalho foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. A fotografia do filme está do jeito que Cazuza, acredito, gostaria: suja, desconcertante e pondo o espectador no centro da estória, deixando-o vulnerável a qualquer coisa que aconteça.

    Utilizando a câmera (de 16 mm a A-Mínima) na mão, Walter Carvalho chega o máximo que pode do estilo documental de uma filmagem em Super-8. Isso faz o filme pulsar de um modo incrível. Acredito que é assim que o cinema brasileiro tem que se firmar, apostando no estilo da forma indo em direção ao conteúdo, e não o contrário.

     

    Em meio a tantas produções com um engajamento artístico ou intelectual exacerbado, “Cazuza – O Tempo Não Pára” é um refresco para os sentidos, principalmente sendo um musical, um grande musical, aliás, um gênero infelizmente pouco explorado na nossa cinematografia. Deu tudo certo neste filme, o que prova que a cinebiografia de cantores é um filão que tem plenas condições de ser explorado (no bom sentido) até o tutano.

    Gostos musicais à parte, o que importa é a dinâmica que a obra consegue ter com o espectador. Sandra Werneck e Walter Carvalho fizeram um trabalho à altura de seu personagem-título, que ao fim da projeção você percebe que ele foi mais do que um cantor, foi um artista que com sua poesia bastante singular até hoje consegue, ao contrário do que prega uma de suas canções mais conhecidas, fazer o tempo parar

    ________

    Serviço:

    Evento: Clube de Vídeo de Teresina

    Local: Casa da Cultura

    Data: Terça a Sexta-feira, 6 a 9 de julho de 2010

    Horário: 18h30

    Mais informações:

    PMT/FCMC–Ascom – Diego Iglesias / Monteiro Júnior – 3215 7828


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